ESQUEÇA TUDO O QUE EU DISSE...

October 11, 2016

 

Consciência

 

Na ausência de uma total devoção pelo outro torna-se impossível cumprir  o ideário da educação consciente, isto através dos postulados do aprender a ser, aprender a fazer, aprender a conhecer, aprender a questionar e, sobretudo, aprender a dar e a receber.

 

Sobre isto, dando ênfase ao que de mais simples há na obsessão  de se ser humano, Agostinho da Silva lembra:

 

“Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura, já o pensamento lhe pertence. ”[1].

 

A este propósito, certo dia, durante uma das minha infindáveis viagens de comboio, a conversa foi por esse lado e alguém me disse: “Gosto dessa linha de pensamento. Então, somos o que aprendemos errando?”.

 

Imaginando-me Agostinho, respondi: não sei se estamos de acordo, contudo, honra lhe seja feita, compreendeu a mensagem. Pensou com a sua cabeça e não com a minha. Parabéns! Esta era a dimensão maior de Agostinho da Silva. Esse é um espaço que falta, infelizmente, nas nossas escolas. O de pensar por si próprio.

 

Num continuum aprender e desaprender a que alguns chamamos vida, a educação revela-se como o que há-de vir.  Este será sempre e só o próximo passo. 

 

Pode  o homem que confessa o seu erro ser o mesmo que o cometeu?

Ao contrário do que muitos julgam, Buda não é aquele que simplesmente se tornou iluminado. Não! Ele é o que persegue a sabedoria continuadamente, deixando atrás de si um rasto suficientemente perceptível, permitindo que outros possam segui-lo.  Assim se  justifica a existência de milhares de Budas, isto do mesmo modo que consolidamos tantos saberes em torno da educação e da formação, isto com esse mesmo intento.

 

 

Voltando à questão que me foi levantada no comboio, i.e. a possibilidade de nós aprendermos  errando, pergunto-me: Pode  o homem que confessa o seu erro ser o mesmo que o cometeu?

 

Apesar de nem sempre tirarmos daí a devida lição, ou  termos disso conhecimento, quando erramos acreditamos que alguém nos devolverá o chão. Para os mais crentes quem dá esse chão é Deus. Para  mim  só a educação e a formação se encarregarão, incessantemente,  de “dar ou tirar o chão”.

 

Contudo, na ausência da liberdade de pensar por si mesmo toda a educação será imperfeita, toda a formação imprudente , todo o ensino  agonia. E, por via disso mesmo, todo o amor  incompleto.

 

Mas, voltemos a Buda. Este, passando todos os dias à mesma hora em certo desfiladeiro, um primo tentou matá-lo, atirando um grande pedregulho para o seu caminho. Por sorte, não conseguiu atingi-lo.

 

O primo estava ferido de ciúme e raiva pela notoriedade do seu familiar mas, passados uns dias, arrependendo-se, foi junto de Buda e disse- lhe que tinha sido ele mesmo quem tinha tentado mata-lo. Perante isso, Buda não fez qualquer comentário.

 

Indignado pela não-reação de Buda, gritou: “Então eu digo que tentei matar-te e tu nada dizes? Nada fazes?!”. Não se indignou ao saber da notícia porque o homem que lhe tinha atirado a pedra não era o mesmo que ali estava (agora) perante ele.

 

O arrependimento torna fácil o perdão. Porém, há outro desafio a ultrapassar para qualquer um de nós mortais: esquecer.  Perdão e aceitação estão, ainda, muito ligados ao sentido último do ser humano, a esperança. Só dessa forma, estando inteiros,  a educação pelos sentimentos e pelo exemplo serão formas amorosas de dar e receber.

 

Dar e receber...

 

 

 

[1] In Cartas a um Jovem Filósofo.

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