MODERNIDADE E SUCESSO...

May 16, 2017

 

Bem-estar Organizacional

 

Na atualidade, mais que aprender a mentir e  ajudar os outros a fingir, ensinam-nos a obedecer e, por último, a fugir... Esta é a regra do sucesso moderno. Vide os vossos bancos, as vossas guerras,  as nossas dívidas, os nossos mortos...

 

O ser humano está doente porque perdeu a coragem de vivenciar a verdade. E, por que mentimos? Porque resulta, porque é eficaz! Para que tal seja possível ensinam-nos a mentir e nós ajudamos os outros a mentir nas escolas,  nos media, na política, nas famílias...

 

A este respeito  li algo absolutamente inquietante,  “as pessoas contratam advogados para poder mentir melhor”. Será que acontece o mesmo com o conhecimento científico, perguntei-me. Percebi, então, que teríamos chegado ao momento mais baixo do que é ser humano. Mas, não tem de ser assim, acredito...

 

Do status de uma vida que não é a nossa, construída com recurso a um crédito em tudo injusto, resultou um país de vassalos.  Os meus filhos são  já escravos por dívidas que não cometeram. E, haverá maior mentira qua tal herança?

 

O que será que o país com o mais elevado consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos tem de verdade[1]? Vivemos na Era da Mentira Radical, sendo obrigados a existir numa dimensão da realidade que não é mais humana.  Tudo isto porque pensamos de mais...

 

Pensar é estar doente dos olhos...

 

Não devemos confundir verdade com juízo de valor. É certo que cada um de nós tem a sua versão; a original. Por isso a  verdade não deverá ser vista como um ponto onde convergem vários caminhos. Apenas um movimento vivo e dinâmico de descoberta. Direi,  um ponto de partida nunca de chegada.

 

Na minha interpretação a verdade é a única utopia que conheço. Esta não será mais um não lugar. Vejo a utopia como a simples tomada de consciência da mudança necessária.

 

Por que se tornou tão fácil faltar à verdade? Esta é uma questão que me persegue desse sempre. Existe um mecanismo que sustenta a mentira? E, outro – diferente - para suportar a verdade? E o que será mentir? Mentir é  pensar muito e reparar pouco...

 

Já aqui falei várias  vezes a este propósito. É que o racionalismo em que nos especializamos, este vício de pensar, traz-nos o medo e a falsa ilusão de controlo dos nossos próprios pensamentos. Ainda, a sensação de podermos conhecer os pensamentos dos outros. Tudo isso é falso!

 

Pensar remete-nos para  a  experiência consciente, mas   isso é uma ínfima parte da nossa existência. Ao insistirmos em viver aqui - exclusivamente  - damos espaço ao maior de todos os embustes.

 

Alberto Caeiro acreditava “ no mundo como num malmequer,  Porque o vejo. Mas não penso nele.  Porque pensar é não compreender ...   O Mundo não se fez para pensarmos nele  (Pensar é estar doente dos olhos)  Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...”.

 

Mentir é pensar muito e reparar pouco...

 

Como vivemos na lógica do pensamento  restrito abandonamos  a bondade, a gentileza,  a brandura, a compaixão, isto  como imperativos espirituais, imaginando-os, agora, unicamente na dimensão moral ou legal. Por exemplo, a delicadeza  como imperativo moral está na base de um mundo desonesto, pois a obrigação moral de sermos gentis nos poderá tornar falsos. E, com isso, deixamos de ser honestos na construção da verdade.

 

Pensar em vez de reparar é interpretar em vez de – simplesmente -  observar. Viver as nossas projeções, evitando a  experiência em si. E, por isso não vemos as coisas como elas são, apenas nos baseamos em informações passadas e projeções futuras. Deixamos de viver a experiência presente.

 

Assim sendo apetece perguntar. Quando foi a ultima vez que olhou nos olhos de alguém? Quando fez o seu ultimo jejum de palavras? Aqui reside o primeiro passo para a mudança das relações humanas. Reparar mais é isso mesmo...

 

Para tanto nos alertou no inicio dos anos setenta  Daniel Filipe. Responsável  pela invenção do amor e outros poemas  escreveu   “ Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis. Apenas o silêncio. A descoberta. A estranheza de um sorriso natural e inesperado”. 

 

Tal como nos suplicava a lírica cabo-verdiana, “é preciso encontrar o casal fugitivo que inventou o amor com carácter de urgência”...

 

 

 

[1] Portugal tem o índice 96 para a  dose diária recomendada por 1000 habitantes. A título de exemplo, a Dinamarca tem um índice de 31 DHD, isto só para dizer que é possível não ser o primeiro da lista... Dados de 2014.

 

 

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