FAZER A SUA PARTE...


Bem-estar Organizacional


Havia um homem tão apaixonado pelas estrelas que para as ver melhor inventou a luneta. Certo dia formou-se uma escola para estudar a sua luneta. Desmontaram a luneta, analisaram-na por dentro e por fora, observaram os seus encaixes, mediram as suas lentes e estudaram a suas características óticas. Sobre a luneta de ver as estrelas escreveram-se muitas teses de doutoramento, assim como muitos congressos aconteceram para a debater.


Toda a gente estava encantada, tão fascinados ficaram pela luneta que nunca mais olharam para as estrelas. Do mesmo modo, os humanos especializaram-se no acessório esquecendo o que é estruturante na nossa vida: ser humano...


Conclusão, há muito que deixamos de nos encantar com as estrelas.


Esta é uma curta história, de inspiração popular brasileira, que tão bem retrata a forma como - simplesmente - nos esquecemos da nossa origem, do nosso ser, lembrando-nos o quanto isso é inumano. Foi nisto que uma certa ciência nos transformou...


Não resisto, ainda, a perguntar-lhe: quando foi a última vez que olhou as estrelas?!


O que nos faltará, então? Que cada um de nós faça a sua parte...


O que é fazer a minha parte?


Nas escolas, nas famílias, nas empresas,..., perdemo-nos na ansia de um conhecer que se transformou na mais maternal das canções de embalar. Alberto Caeiro bem que nos avisou, afirmando “ Porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez. E nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar”. Deste modo se constrói , dia após dia, um mundo em contramão. E com ele o edifício da ciência e da moralidade do homem moderno.


Mas, contar histórias é a melhor forma de permitir a que cada um aproveite a seu jeito os ensinamentos por tantos partilhado. Porque estamos em tempo de férias continuarei a contá-las. Isso é já fazer a minha parte. Então...


Perante um medonho incêndio, todos os animais fugiam apressadamente do mato em chamas. Quando o hipopótamo passou perto do lago, reparou que um colibri enchia o seu pequeno bico de água, preparando-se para a lançar sobre o imenso incêndio.


O hipopótamo parou e, com um sorriso de orelha a orelha, perguntou-lhe incrédulo. O que estás a fazer?!


O colibri respondeu de forma serena. Eu? Eu estou a fazer a minha parte...


Assim, a paz que procuramos estará, sempre, na consciência de ter feito a nossa parte, realizando cada um de per si o seu centro de valores. Isso será suficiente para mudar o mundo. Fazer a nossa parte... Só deste modo deixaremos de ser essa parte da praia onde o mar não mais chegará...


E, como poderemos juntar o que já está junto?


Coloco outras questões a este respeito, isto com o intuito de ajudar a entender uma responsabilidade que é só nossa. Para isto faço a adaptação de uma outra velha história.


Existe o frio? Claro que sim todos nós já o sentimos!

Não, o que existe é unicamente o calor, o frio é a ausência de calor.


E, o escuro existe? Claro que sim. Vejamos... o escuro é simplesmente a ausência de luz. Só a luz é passível de ser estudada; o escuro não existe.


Finalmente, existe o mal? Claro que sim, bastará ver o estado do mundo. Não! O mal não existe, apenas poderemos afirmar que este é resultado da ausência do bem. Por si mesmo - o mal - não subsistiria.


E, qual será a responsabilidade do ser humano ante tudo isto? Eu diria que é total!


Tudo o que é realmente nosso é preexistente à natureza do mundo. Trata-se de algo que está desde sempre em nós. Logo, a infelicidade, o sofrimento, a posse,..., apresenta-se-nos, agora, como uma criação exclusiva dos homens e das mulheres. Não existem na natureza por si só. São afectos de uma mente inquieta.


Do mesmo modo, a condição de ser humano é algo que está presente quando nascemos. Mas, estar vivo é diferente de existir; dizem. Este será o próximo desafio? Não estou convencido disso...


Afinal, se tudo depende só de mim por que seria diferente consigo? Carlos Drumond de Andrade imortalizou este sentido para a vida no seu poema “Definitivo”, lembrando-nos que a nossa dor não advém das coisas vividas, apenas das coisas que foram sonhadas e não cumpridas.


Enquanto cada um de nós sonhar sozinho, continuaremos - simplesmente - a sonhar. Pelo contrário, sonhar em conjunto com outros é já estar perante a única realidade que conheço: ser humano.

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