CONSUMO, LOGO EXISTO...


Bem-estar Organizacional


Ante a febre do consumo o que resta entre ser gente e viver como tal ? Existir, pensei eu... Logo percebi que isso deixa de ser importante se não tivermos acesso ao paraíso...


Mas que paraíso ?


Será o mesmo de Adão e Eva? Sim! Acredito que é o mesmo... A história repete-se... Surpreendidos?


É esse mesmo paraíso que a sociedade de consumo nos concede. Mais grave ainda, é neste espaço que todo o real está, agora, limitado. O paraíso tornou-se a única revindicação da realidade a que o ser humano parece estar condenado. E, o que significará tal fado?


Diz-nos o Genesis 3, do Velho Testamento, a propósito da expulsão de Adão e Eva do paraíso: “Então, abriram-se os olhos aos dois e, reconhecendo que estavam nus, prenderam folhas de figueira umas às outras e colocaram-nas como se fossem cinturões à volta dos rins”. Ora, até de lá serem expulsos, não sentiram qualquer tipo de vergonha por estarem nus, pois estavam de olhos fechados. Continuando com a minha interpretação, no paraíso, Adão e Eva não conseguiam ver. Então, pergunto eu, qual será a vantagem de tal éden?


O simulacro de existir...

A propósito desta obsessão responsável por uma grande parte dos dramas em que os adultos vivem quotidianamente deixo-vos uma velha história sufi.


Havia um homem que só aceitava casar com uma mulher perfeita. Era conhecido por toda a aldeia por isso mesmo. Por via dessa fixação, passou grande parte da sua longa vida empenhado em tal propósito. Aproximando-se a hora da morte, uma vizinha não resistiu a perguntar-lhe:


- Diz-me, Baha al-Din, ao fim de todos estes anos, tu nunca encontraste a mulher perfeita?!


Serenamente, desviando o olhar para o horizonte, respondeu:


- Claro que sim, encontrei várias. Mas,... mas todas procuravam um homem perfeito!


Como facilmente compreenderemos este homem viveu uma vida inteira partindo do meio do caminho, confundindo origem com resultado.


Então, a grande fantasia do ser humano baseia-se num erro de perspectiva primordial. É que, afinal, toda a consciência nasce da imperfeição, isto ao contrário do que quase todos, incluindo muitas religiões, nos ensinaram. O convencimento da perfeição é absolutamente inútil à evolução dos povos. O paraíso, por outro lado, é desumano. Uma espécie de injustiça imortalizada na ambiguidade da separação entre o viver e o ser, na ilusão da modernidade de existir.


Consumo, logo existo...

Há uma metáfora de Nietzsche que há muito tomei como minha, Quando olhas para o abismo demasiado tempo, o abismo olha para ti. E, isto é o mesmo que dizer o abismo engole-te! É igual com a guerra, com a ilusão do poder, ou mesmo, com a própria alimentação. Se “olhas” demasiado tempo para um “hamburger” acabas por ficar com cara e corpo de “hamburger”, isso todos o sabemos...


Mas, quando relacionamos consumo com o paraíso reparamos que ele está, agora, dependente do mais vil dos pecados. Qual será ele? É que as empresas de maior sucesso estão apostadas em dar às pessoas tudo o que elas tanto desejam. E, isso será pecado ou paraíso? Infelizmente, suponho que ambos...


Um e o outro, transformados em mercado, passaram a ser entidades não controláveis de uma economia que vai por si mesma. Afetando e sendo afectados irremediavelmente pelo comportamento do homem moderno, permitindo que o lugar de vida do ser humano se edificasse na mais perversa exaltação do consumo.


Isto é de tal modo presente no indivíduo que alguns destes comportamentos são já reconhecidos na classificação internacional das doenças mentais e comportamentais (International Statistical Classification of Diseases and Related Health Problems). São exemplo disso a febre das compras e a oniomania.


Eu sei, isto parece cruel... Mas, é real! E, o que poderemos fazer? Ante a máxima consumo logo existo, cumpre-nos resistir. Resisto logo existo! Rui Barbosa disse a este respeito, maior que a tristeza de não ter vencido é a vergonha de não ter lutado. E, como iremos explicar aos nossos filhos a vergonha de não ter tido coragem de resistir?