MODERNIDADE E SUCESSO...



Bem-estar Organizacional


Na atualidade, mais que aprender a mentir e ajudar os outros a fingir, ensinam-nos a obedecer e, por último, a fugir... Esta é a regra do sucesso moderno. Vide os vossos bancos, as vossas guerras, as nossas dívidas, os nossos mortos...


O ser humano está doente porque perdeu a coragem de vivenciar a verdade. E, por que mentimos? Porque resulta, porque é eficaz! Para que tal seja possível ensinam-nos a mentir e nós ajudamos os outros a mentir nas escolas, nos media, na política, nas famílias...


A este respeito li algo absolutamente inquietante, “as pessoas contratam advogados para poder mentir melhor”. Será que acontece o mesmo com o conhecimento científico, perguntei-me. Percebi, então, que teríamos chegado ao momento mais baixo do que é ser humano. Mas, não tem de ser assim, acredito...


Do status de uma vida que não é a nossa, construída com recurso a um crédito em tudo injusto, resultou um país de vassalos. Os meus filhos são já escravos por dívidas que não cometeram. E, haverá maior mentira qua tal herança?


O que será que o país com o mais elevado consumo de ansiolíticos, sedativos e hipnóticos tem de verdade[1]? Vivemos na Era da Mentira Radical, sendo obrigados a existir numa dimensão da realidade que não é mais humana. Tudo isto porque pensamos de mais...


Pensar é estar doente dos olhos...


Não devemos confundir verdade com juízo de valor. É certo que cada um de nós tem a sua versão; a original. Por isso a verdade não deverá ser vista como um ponto onde convergem vários caminhos. Apenas um movimento vivo e dinâmico de descoberta. Direi, um ponto de partida nunca de chegada.


Na minha interpretação a verdade é a única utopia que conheço. Esta não será mais um não lugar. Vejo a utopia como a simples tomada de consciência da mudança necessária.


Por que se tornou tão fácil faltar à verdade? Esta é uma questão que me persegue desse sempre. Existe um mecanismo que sustenta a mentira? E, outro – diferente - para suportar a verdade? E o que será mentir? Mentir é pensar muito e reparar pouco...


Já aqui falei várias vezes a este propósito. É que o racionalismo em que nos especializamos, este vício de pensar, traz-nos o medo e a falsa ilusão de controlo dos nossos próprios pensamentos. Ainda, a sensação de podermos conhecer os pensamentos dos outros. Tudo isso é falso!


Pensar remete-nos para a experiência consciente, mas isso é uma ínfima parte da nossa existência. Ao insistirmos em viver aqui - exclusivamente - damos espaço ao maior de todos os embustes.


Alberto Caeiro acreditava “ no mundo como num malmequer, Porque o vejo. Mas não penso nele. Porque pensar é não compreender ... O Mundo não se fez para pensarmos nele (Pensar é estar doente dos olhos) Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...”.


Mentir é pensar muito e reparar pouco...


Como vivemos na lógica do pensamento restrito abandonamos a bondade, a gentileza, a brandura, a compaixão, isto como imperativos espirituais, imaginando-os, agora, unicamente na dimensão moral ou legal. Por exemplo, a delicadeza como imperativo moral está na base de um mundo desonesto, pois a obrigação moral de sermos gentis nos poderá tornar falsos. E, com isso, deixamos de ser honestos na construção da verdade.


Pensar em vez de reparar é interpretar em vez de – simplesmente - observar. Viver as nossas projeções, evitando a experiência em si. E, por isso não vemos as coisas como elas são, apenas nos baseamos em informações passadas e projeções futuras. Deixamos de viver a experiência presente.


Assim sendo apetece perguntar. Quando foi a ultima vez que olhou nos olhos de alguém? Quando fez o seu ultimo jejum de palavras? Aqui reside o primeiro passo para a mudança das relações humanas. Reparar mais é isso mesmo...


Para tanto nos alertou no inicio dos anos setenta Daniel Filipe. Responsável pela invenção do amor e outros poemas escreveu “ Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura e souberam entender-se sem palavras inúteis. Apenas o silêncio. A descoberta. A estranheza de um sorriso natural e inesperado”.


Tal como nos suplicava a lírica cabo-verdiana, “é preciso encontrar o casal fugitivo que inventou o amor com carácter de urgência”...




[1] Portugal tem o índice 96 para a dose diária recomendada por 1000 habitantes. A título de exemplo, a Dinamarca tem um índice de 31 DHD, isto só para dizer que é possível não ser o primeiro da lista... Dados de 2014.